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BLOG ALIANÇA FRANCESA  gOIÂNIA

Palavras Francesas Que Vem do Árabe

Atualizado: 17 de mar. de 2022


Quando pensamos em idiomas que influenciaram a língua francesa, o latim e o gálico (dos gauleses) são as primeiras referências que vêm a mente. Apesar da influência destes dois idiomas ter sido significativa para a construção da língua francesa, há seis vezes mais palavras francesas que vem do árabe do que gálicas.


Na verdade, com relação a outros idiomas, a língua árabe é a terceira língua da qual se fizeram mais empréstimos depois do inglês e do italiano. Estes encontros linguísticos aconteceram de forma direta ou indireta (por meio de outros idiomas) e em diferentes épocas (da Idade Médica a Contemporaneidade).


Esta influência é bem significativa no vocabulário científico especializado, como em astronomia, medicina, química, fauna e flora, que é muito numeroso. Contudo, este texto vai focar em 8 termos e uma expressão mais cotidiana para observar esta influência. Alons-y?


* As grafias usadas abaixo são de transcrições do árabe retiradas do Le Petit Robert.

1. “Avoir le cafard”

Tradução literal: Estar com a barata


Esta expressão é usada quando se está triste, deprimido, desanimado. Mas como que a palavra “cafard” passou a ser relacionada com tristeza? A origem desta expressão está vinculada não apenas ao árabe, mas a Charles Baudelaire.


Originalmente, a palavra que foi incorporada ao dicionário francês foi “kafir”, que significa “criatura moral e sem valor”, isto no século XVI. Em sua origem árabe esta palavra era utilizada para descrever um “não crente” (pois se Deus é luz, quem não é crente é visto como ‘rastejante’ na sombra).


Mas a adaptação para o sentido corrente apareceu com a obra “Les Fleurs du mal” de Charles Baudelaire, que popularizou a analogia entre o inseto e o estado de espírito melancólico por meio da frase “J’ai le cafard aujourd’hui! ” (Hoje estou com a barata = hoje estou desanimado).


2. Nénuphar

Tradução literal: Nenúfar (plantas aquáticas como a vitória-régia)


A palavra em sânscrito “nilautpala” significa “lótus azul”, que se tornou nilufar em persa, depois ninufar em árabe. Quando foi a vez do latim tomar a palavra emprestada, a grafia “neuphar” foi predominante, com as letras “ph” que são usadas até hoje na língua francesa.


Esta grafia não corresponde aquela comumente usada em árabe, esta mudança aconteceu devido a influência da palavra grega “nymphea”, usada para designar o mesmo tipo de planta. Por isso, a forma “nenúfar” que é a etimológica.


3. Mousson

Tradução literal: Monção


O termo “mousson” significa vento tropical sazonal, que é mais presente na Ásia que na África do Norte ou Oriente Médio. Seu nome se deve à palavra árabe “mausim”, que significa “temporada/época fixa, época propícia a viagem nas Índias”.


A própria palavra fez uma longa viagem linguística, passando pelos holandeses, os portugueses e espanhóis sob diferentes grafias, antes de aparecer na língua francesa lá no final do século XVI. Antes, “mouçone” e “monçon”, a grafia “mousson” foi reconhecida em 1622, estabelecida até os dias de hoje.


4. Chiffre e zéro

Tradução literal: Número/ cifra e zero


Os matemáticos árabes pegaram emprestado o sistema numérico indiano, que depois foi importado para Espanha mulçumana na Europa. O número zero foi nomeado pelos árabes como “sifr”, que significa “vazio, nulo”.


Com a intervenção do latim medieval, “sifr” se tornou a palavra francesa “chiffre”, inicialmente usada para designar o número zero. Depois de um tempo, para dar nome ao valo nulo, a palavra “chiffre” foi substituída por “zero”, do latim “zephirum” e italiano “zefiro”, contraído para “zero”.


5. Matelas

Tradução literal: colchão


O termo “matelas” é uma alteração da palavra “materas”, que provavelmente foi pego emprestado no século treze do italiano “materasso”, que significa “almofada grande para enfeitar a cama”.


A origem da palavra em do árabe “matrah” (tapete/esteira, almofada/travesseiro) e “taraha” (deitar), uma vez que as pessoas que habitavam o oriente entendiam que os tapetes e almofadas no chão eram usadas para deitar e dormir. Esta origem explica o sentido da palavra em francês: um colchão no qual se deita no oriente.


6. Jupe

Tradução literal: Saia


Quando ele criou suas saias para homens, Jean-Paul Gaultier conhecia a etimologia desta palavra? Porque a palavra “jupe” vem do arábico “djubbah”, nome de uma longa vestimenta de lã que fazia parte da vestimenta masculina.


A palavra aparece no francês no século doze, por meio do termo italiano “jupa”, que seve para nomear um gibão usado por homens. Mas somente no século XVII que o termo assume seu sentido atual, associado a uma vestimenta feminina.


7. Hasard

Tradução literal: Acaso


Un coup de dés jamais n’abolira le hasard” (Um dado nunca irá acabar com o acaso), escreveu o poeta Mallarmé. Contudo, “hasard” foi um empréstimo do espanhol “azar” do arábico “az-zahr”, que significa “jogo de dados”. Sua origem é incerta, pode ter vindo do termo “yasar” (jogo de dados) ou “zahr” (flor/favor), os dados tinham uma flor em uma das faces.


Na língua francesa, “hasard” inicialmente era utilizado para designar um jogo de dados da Idade Média e seu primeiro significado vem da expressão “jeu de hasard” (jogo de azar). Mas esta referência foi esquecida, atualmente o sintagma evoca os “jogos” ou “aleatoriedade”, que é mais importante que a estratégia ou habilidade.


8. Zénith

Tradução literal: Pino/apogeu


Em astronomia, “zénith” significa um ponto vertical, em relação ao observador, no céu. Contudo, este termo, na verdade, é um erro de escrita. A palavra se trata de uma leitura malfeita da palavra “zemt”, transcrição latina do termo árabe “samt” (caminho), da expressão “samt ra’s” (caminho cima/sobre a cabeça).


Então, a palavra “zemt” se tornou “zenit”, depois “zenith” antes de ser usada em francês no século XIV. Outro termo do nosso vocabulário que vem de “samt”: a palavra “azimut”, que vale muitos pontos na Cruzadinha!


9. Café

Tradução literal: Café


Quando dizemos que vamos tomar um cafezinho (petit caoua, em francês), não nos damos conta que fazemos referência a origem da palavra “café”. Surgida no século XVII, a palavra provavelmente veio do termo italiano “caffè”, derivado do turco “qahve”, que ele mesmo veio do arábico “qahwa”, que a princípio significa “licor aperitivo”.


Ou, ele vem da palavra “qahwa”, escrito como “caoua”, “cahoua” ou “kawa”, que foi empregado no século XIX por soldados franceses argelinos para designar a bebida, como usamos atualmente.


Um Morceau de História


A partir daqui faremos uma pequena viagem pelos caminhos que a língua árabe fez para que ela acabasse fazendo parte, ou servindo de base, para várias palavras da língua francesa.


Caso a parte da curiosidade tenha sido seu maior interesse, foi muito bom estar contigo até aqui. Mas se ainda há um pouco de fôlego para uma viagem no tempo venha conosco nesta aventura.


Então, pegar termos emprestados não é uma novidade dos idiomas, ao longo da história isto aconteceu pelas mais variadas razões. Mas com o tempo os empréstimos foram tão incorporados e passam por tantas mudanças que nem percebemos que elas na verdade vêm de outros idiomas.


Mas a questão é: qual é o processo pelo qual os idiomas emprestam termos uns aos outros?


Antes de mais nada é importante ter em mente que o primeiro fator que dita a forma como uma cultura (e por consequência seu idioma) vai influenciar outras é determinado pelo seu prestígio econômico.


E este foi o caso da cultura árabe na Idade Média, sobretudo nos séculos XII e XIII. Neste período, a civilização árabe se espalhou pelos territórios europeus hoje conhecidos como Portugal, Espanha e França.


Neste momento, o idioma árabe era a língua culta codificada e a sua civilização conduzia as tendências literárias, filosóficas e científicas da época, que refletem nestas áreas até hoje.


Foi dessa forma que a cultura árabe emprestou seu vocabulário para outras línguas. Na língua francesa, o vocabulário árabe chegou principalmente por meio da região Al Andalus, Espanha mulçumana, que atuou como ponte entre culturas.


Um dos empréstimos que ocorreu neste contato foi o termo "arrobase", que usamos nos nossos e-mails hoje, que na época era empregado como uma unidade de medida de altura. Assim também ocorreu com os termos, "abricot" (abricot), do "coupe" (vidro), do "orange" (laranja), do "alcôve" (quarto de dormir) e vários outros termos.


Outro momento no qual a língua árabe entrou em contato com a língua francesa foi durante o período das Cruzadas, séculos depois com o Renascimento e décadas depois com as Grandes Descobertas. Os agentes destes processos foram soldados, comerciantes, navegadores, diplomatas e aventureiros.


Avançando algumas décadas na história, até o período da colonização, independência e imigração norte-africana houve uma nova onda de empréstimos do idioma árabe pela língua francesa, que marcou bastante o registo popular e familiar.


Podemos perceber este contato em termos como "chouïa" (chwaya, poucos), "kif-kif" (mesmo), "fissa" (rápido), "toubib" (médico), "clebs" (cão) e muitos outros.


Quando houve a repatriação dos colonos da Argélia em 1962, palavras de cunho culinário como "merguez" (salsicha) e "méchoui" (churrasco) passaram a constituir o vocabulário quotidiano.


Por fim, o movimento migratório Maghrebi trouxe para França novas palavras como "maboul" (louco) ou "miskine" (pobrezinho). E esta influência migratória, continua a impactar a língua francesa, por meio da "língua dos jovens", com termos como "kif / kiffer" (gozar), "seum" (ódio, raiva), "beur" (pessoa nascida em França de pais imigrantes Maghrebi).


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